Atualmente o Território do Xingu é uma ilha cercada de desmatamento causado pela monocultura da soja, milho e algodão; a população indígena do Xingu está sendo cada vez mais pressionada pelo desmatamento e pelas obras de infraestrutura.
Entre os focos principais da agenda de projetos socioambientais do Instituto Aritana está a proteção e o monitoramento territorial. A equipe de monitoramento atua em diversas regiões do Território Indígena do Xingu, onde registra, mapeia e realiza sondagens com o objetivo de documentar e denunciar as atividades ilegais detectadas.
Esse trabalho já identificou ameaças como extração ilegal de madeira, pesca ilegal, monocultura com uso de agrotóxicos, extração de cascalho e áreas de sobreposição com atividades do agronegócio. Em campo, as equipes verificam os limites, identificam os marcos da FUNAI, além de restaurarem e realizarem o plaqueamento, quando necessário.
Os agentes conversam com lideranças e suas comunidades e trabalham em parceria com outras instituições, como o PrevFogo e o Instituto Raoni.
No Xingu, a cultura é a raiz que sustenta o território. Rituais como o Kuarup mantêm viva a memória dos antepassados, reúnem os povos e transmitem às novas gerações os conhecimentos que protegem a floresta.
O Kuarup é a grande cerimônia dos povos do Alto Xingu em homenagem aos mortos ilustres. Segundo a tradição, foi Mawutzinin, o criador e primeiro homem, quem esculpiu os primeiros kuarup em troncos de madeira para trazer os mortos de volta à vida. Até hoje, cada tronco pintado e enfeitado no centro da aldeia representa o espírito de um líder falecido, com os sinais do que ele foi em vida: pajé, guerreiro, caçador ou chefe de família.
Apesar de ser uma cerimônia em memória dos mortos, o Kuarup é uma festa de alegria, porque os mortos não querem ver os vivos tristes. Os povos convidados chegam à aldeia anfitriã, os cantos acompanham a noite inteira e, no dia seguinte, os jovens lutadores se enfrentam no huka-huka, a luta tradicional xinguana. O ritual encerra o período de luto e marca também a saída das moças que passaram meses em reclusão para se tornarem mulheres.
Para o Instituto Aritana, que leva o nome do grande cacique Aritana Yawalapiti, falecido em 2020, proteger o território é também proteger esses rituais.
O Instituto Aritana pertence aos dezesseis povos do Xingu. Uma equipe indígena coordena seus projetos, e todos os anos a Assembleia dos caciques define as prioridades e acompanha o trabalho realizado.
Fundado em 2021 na aldeia Yawalapiti pelos caciques dos povos do Território Indígena do Xingu, o Instituto Aritana tem como membros todos os dezesseis povos do território. Sua Assembleia soberana reúne representantes de cada povo do Alto, do Médio, do Baixo e do Leste Xingu. Ela aprova o plano de trabalho e as contas do Instituto e escolhe a sua diretoria. Um Conselho de Caciques orienta as decisões, e um Conselho Fiscal acompanha a gestão financeira.
A equipe do Instituto, presidida pelo cacique Tapi Yawalapiti, reúne coordenações geral, de projetos, financeira, administrativa e de monitoramento territorial. Ela coordena sete brigadas de vigilância indígena, recrutadas nas comunidades próximas aos postos.
Em maio de 2026, a Assembleia Geral reuniu no Polo Leonardo 215 participantes representando os dezesseis povos do Xingu. Foi um momento de prestação de contas, de diálogo com parceiros e autoridades e de decisão coletiva sobre o futuro do território.
As mulheres xinguanas são guardiãs dos saberes, das sementes e da alimentação tradicional. Organizadas em movimento, elas reivindicam o seu lugar ao lado dos homens nas decisões sobre o território.
Em maio de 2019, cerca de 200 mulheres de dezesseis etnias se reuniram durante quatro dias na aldeia Ilha Grande, no Médio Xingu, num encontro histórico. Enquanto os homens assumiam a cozinha e o cuidado das crianças, elas debateram a proteção do território, a recusa da venda de terras e de madeira, a alimentação tradicional, as plantas medicinais ameaçadas pelas mudanças climáticas e a sua participação nas decisões políticas.
Desse encontro se fortaleceu o Movimento das Mulheres do Território Indígena do Xingu (MMTIX), com lideranças como Watatakalu Yawalapiti e a pajé Mapulu Kamayurá. O objetivo, nas palavras do movimento, é estar ao lado dos homens: nem à frente, nem atrás. Em agosto de 2019, as mulheres do Xingu participaram em grande número da primeira Marcha das Mulheres Indígenas, em Brasília.
O Instituto Aritana apoia esse protagonismo. As mulheres participam das consultas sobre os projetos do território, e a proteção da floresta garante as roças, as sementes e os saberes que elas transmitem às novas gerações.